sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Sobre monstros, deus e solidão

Acendo um cigarro e vou pra janela fumar. Minha rotina persiste na madrugada. Cigarro e janela. Pego um livro e sento no chão, e penso em todos os monstros que podem aparecer na janela ou de baixo da minha cama. E isso me assusta. Eu sou um quase homem de muitos medos toscos. Eu não gosto da ideia de existirem seres humanos canibais, e nem do meu quarto parecer uma estação de trem para fantasmas. Tem uma música triste tocando no fundo da minha história de terror que eu costumo chamar de vida. As coisas nem são tão ruins assim. Se tirar as pessoas, os gilós, as academias, e me deixarem só com a minha avó e um monte de pizza e série bacana, já dá pra ficar bem de novo. O problema é ficar bem num dia como esses, onde tudo o que eu tenho é meio maço de cigarro para meios homens e medo. Se eu contar pra mim mesmo que na ultima segunda-feira eu tava feliz, eu nem acreditaria. É ruim sentir tédio o tempo todo. As vezes eu sinto a necessidade de voltar a ter 15 anos, brigar com os meus pais e sair de madrugada escondido com alguns amigos pra beber vinho, fumar maconha e criar teorias. Aliás, eu vivo criando teorias. Tenho uma teoria sobre pessoas que tem cara de cheiro. Eu acho que meu professor tem cara de cheiro de iorgut de morango barato de supermecado que eu nunca gostei, mas ele tem um cheiro bom e eu gosto dele. Eu, na minha maldita mania de odiar tudo, acho que os gostos são inevitáveis em certas horas. Tem dia que eu odeio chuva, mas aí eu esqueço o guarda-chuva em casa de propósito. Tem dia que eu odeio ser triste, mas aí eu vejo que não tem solução, que a gente nasce pra ser triste mesmo e conquista a felicidade de vez em quando. Na verdade eu sigo a filosofia de que a pessoa do meu lado não é sentimentos, ela apenas está sentimentos e tudo vai passar pra ela, só que não vai passar pra mim. As vezes eu chego em casa e me jogo na cama, outras vezes eu chego em casa, me jogo na cama e choro. Chorar sem porque ou com porque faz parte da rotina de ir fumar na janela de madrugada. A sociedade prega que o homem tem que ser corajoso, mas como meio homem eu não sou nada além de metade, e talvez eu nem metade seja, a não ser que meu vazio seja grande o suficiente para me preencher. Eu queria ter 7 anos de novo pra poder chorar no colo da minha mãe por causa do meu joelho ralado, jogar futebol e espantar meus medos com uma oração para Deus. Mas parece que quando você cresce Deus te abandona. Eu fiquei sabendo que tinha crescido quando minha mãe pôs uma bíblia no meu quarto e eu
comecei a politizar a bíblia. Meu quarto é laico, de verdade. Eu queria dizer que pra ser feliz eu só preciso de um bolinho num dia de chuva, mas a felicidade é tanta coisa. Todo mundo mente quando fala de felicidade, ser feliz não é pra qualquer um. Eu nem sei se felicidade é algo bom. Acho que meu jeito de ser feliz é sendo triste. Mas voltando pra minha teoria de cheiros, sabe quando você ta sozinho no quarto e aí sente o cheiro de alguém do nada? Dizem que é o seu cérebro te enganando mas eu acho que são espíritos apressados passando por você, saindo dos espelhos e entrando na sua mente. A vida é essa loucura de estações de trens movimentadas dentro do quarto. Não tem metrô. O homem criou o metrô pra poder mostrar que Deus esqueceu a gente. Eu acho que Deus esqueceu a gente. E eu acho que Deus ta cansado das minhas reclamações sobre ele. Meu ego é grande o suficiente pra achar que Deus notou a minha existência porque essa merda toda na minha vida não pode ser só uma coincidência, tem dedo de Deus nisso. Aliás, eu acho que tem um infinito vigésimo sexto Deus por aí que botou o dedo no mundo e quebrou o equilíbrio. O Diabo nunca foi um cara mal, ele só precisava existir de um outro jeito, sabe? Ele ta lá ajudando Deus enquanto a gente ta ferrando ele, e isso é exatamente o que o infinito vigésimo sexto Deus quer que a gente faça enquanto ele ganha tempo pra estuprar todo mundo. Queria ter 15 anos e tomar um porre, e depois chorar no colo da minha mãe porque o amor da minha vida não me corresponde. O amor da minha vida é um camaleão que uma hora tem 2 metros de altura e 5 faculdades diferentes, e depois ele é a menininha idiota que vem pra minha casa me encher o saco e me fazer ter certeza de que eu tenho um amor. Eu aprendi que chegar no meu limite é sentir as cicatrizes do meu corpo doendo, porque elas passaram a existir quando eu cheguei no limite pela primeira vez. O céu é um daqueles trens bonitos e antigos que faz meu avô lembrar do pai dele e chorar. O inferno deve ser bem parecido com o metrô de São Paulo ou com São Paulo. E se você traduzir felicidade como céu, você vai saber que pro meu avô, ser feliz é viver e reviver bons momentos longe de casa. Eu acho que no meu céu tem cigarro e cerveja, e talvez o inferno seja o lugar onde eu não vou poder ficar bêbado sem ninguém falar no meu ouvido o tempo todo. É, talvez eu queira ir pro céu, se tiver cerveja por lá. Talvez eu queira ver Deus, algum dia, porque se ele me ferra desse jeito ele tem que ter pelo menos a decência de aparecer pra mim. Eu não quero explicações de coisas, sabe? As árvores, os professores, os bolinhos e os cigarros não são nada perto da felicidade de ser triste num dia como esses. Eu só to cansado de ser triste por aqui.


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